Jornadas de Ação Sócio-Caritativa em abertura da Semana Nacional Cáritas
No passado sábado, as Jornadas de Ação Sócio-Caritativa, no âmbito da abertura da Semana Nacional Cáritas, contaram com a presente do padre Manuel António do Rosário, sacerdote da Diocese de Beja, e com a intervenção de duas técnicas da Cáritas Diocesana de Beja, também assistentes sociais no Centro Local de Apoio à Integração de Migrantes.
As XXIII Jornadas de Ação Sociocaritativa da Diocese do Algarve evidenciaram que o presente Jubileu que a Igreja está a viver tem como objetivo “reanimar o sentido profundo da esperança cristã” e que “esta esperança tem um nome: Cristo”.
“Se o encontrámos, morto e ressuscitado, não podemos guardá-lo só para nós. O encontro com Cristo deve, pois, ter consequências em quem o encontrou e lhe abriu a porta da sua vida”, considerou o padre Manuel António do Rosário, sacerdote da vizinha Diocese de Beja, sobre a temática “Pastoral Social – Chamados a ser sinais de esperança”.
O padre Manuel António considerou que os “desafios emergentes” que o Ano Santo apresenta decorrem dos apelos que o Papa Francisco tem apresentado no exercício do seu magistério: “os pobres, a ecologia, a misericórdia e a sinodalidade”.
“Apesar de alguns países considerados do Terceiro Mundo estarem a conseguir sair da pobreza, continua a aumentar o fosso entre países ricos e pobres, surgindo mesmo nos países considerados ricos uma expressão que nos deveria envergonhar: Quarto Mundo. Aqui estão integrados os pobres dos países ricos, Europa incluída, bem como os Estados Unidos, onde o número destes pobres ascende a algumas dezenas de milhões de pessoas”, referiu o orador.
O conferencista enumerou ainda “sinais” que desafiam os cristãos a trabalharem “conduzidos pela esperança”. Referiu-se concretamente ao “empenho em favor da paz”´; ao combate ao “inverno demográfico”, “amando e acolhendo entusiasticamente a vida”; à defesa de “condições dignas para quem está recluso, respeito pelos direitos humanos e, sobretudo, a abolição da pena de morte”; a respostas de proximidade, carinho, visitas aos “doentes que se encontram em casa e nos hospitais”; ao “com cuidado, empenho, proximidade” aos “jovens sem esperança, sem emprego, alienados”; ao “acolhimento, responsabilidade, ajuda na integração, segurança, trabalho, instrução” como resposta aos “dramas que afetam os migrantes”; à “proximidade da Igreja” aos migrantes; e ao combate à “solidão e abandono a que tantos idosos são votados”, valorizando o “tesouro que eles constituem”, “amparando-os e manifestando-lhes amor e gratidão”.
No sábado de tarde tivemos o testemunho de duas assistentes sociais da Cáritas Diocesana de Beja e do Centro Local de Apoio à Integração de Migrantes (CLAIM). Ana Margarida Barrocas e Teresa Palhete explicaram que os imigrantes que chegam àquela diocese vizinha procuram as duas entidades sobretudo para pedir ajuda na sua regularização, mas o auxílio ao reagrupamento familiar ou ao retorno voluntário aos países de origem também são pedidos frequentes.
Para além disso, o apoio no acesso aos cuidados de saúde é outra das preocupações da Cáritas de Beja e do CLAIM. “A proteção de um imigrante é a proteção de cada um de nós. A saúde de um é a saúde de todos. As portas dos serviços de saúde deviam ser escancaradas à comunidade migrante e não fechadas”, defendeu Ana Margarida Barrocas.
As duas técnicas, que apresentaram vídeos com testemunhos de imigrantes que apoiam, realçaram que a vinda para Portugal de pessoas de outros países “tem vindo a aumentar todos os anos”. “A Pordata, em 2022, dizia que havia 800 mil estrangeiros em Portugal, quase o dobro de há 10 anos. Hoje estima-se que sejam mais de 1 milhão”, adiantou Ana Margarida Barrocas.
A assistente social disse que “querem procurar trabalho e melhores condições de vida para a sua família”, traçando o retrato do “jovem adulto” que vem para Portugal e “é o sustento de toda a família”. “Não só de mulher e filhos, mas também dos seus ascendentes que estão no país de origem em situações precárias”, precisou, explicando haver imigrantes que auferem o ordenado mínimo e “conseguem subsistir cá e enviar dinheiro de forma a que a família inteira subsista lá”.
Ana Barrocas explicou que os homens “trabalham sobretudo na agricultura e na construção civil”, enquanto as mulheres “muito na assistência e apoio a idosos e nas limpezas”. Disse ainda que “muito africanos” chegam ao país para “completar os seus estudos quer a nível superior, quer do secundário e do ensino profissional”.
Teresa Palhete lamentou os “preconceitos”. “Quem são as pessoas que vêm para cá? São pessoas exatamente como nós. Têm é um percurso completamente diferente, com condições completamente diferentes das nossas, mas todos têm pai, mãe e filhos, todos precisam de trabalhar, de comer. Só falam uma língua diferente e, se calhar, a cor da pele pode ser diferente. E temos de pensar na nossa história que, enquanto portugueses, já fomos para outros países e temos também uma história de emigração”, referiu.
As jornadas contaram com cerca de 25 participantes e decorreu no Centro Pastoral e Social da Diocese do Algarve, em Ferragudo.
Fonte: Folha do Domingo