XXIV Jornadas de Ação Sócio-Caritativa
A Diocese do Algarve promoveu no passado sábado, dia 28 de fevereiro, no Centro Paroquial de Loulé, as XXIV Jornadas de Ação Sócio-caritativa, com o tema “Pobres sempre os tereis (Mt. 26,11)”.

A iniciativa teve lugar no Centro Paroquial de Loulé com 51 participantes das paróquias de Boliqueime, Estoi, Ferreiras, Lagos, Santa Bárbara de Nexe e São Pedro de Faro, das Santas Casas da Misericórdia de Faro e de Silves, das Cáritas Paroquiais de Boliqueime, Cachopo, Loulé, matriz de Portimão, Nossa Senhora do Amparo de Portimão, São Brás de Alportel e Sé de Faro e da Sociedade de São Vicente de Paulo, elementos do Conselho Central do Algarve e também da conferência de Tavira.
Na sessão de abertura, o bispo do Algarve disse ver “um convite” na afirmação de Jesus que serviu de tema ao encontro. “Um convite a não nos resignarmos diante da pobreza, mas a vermos nesta afirmação um desafio permanente à nossa responsabilidade”, explicou D. Manuel Quintas, acrescentando “a resposta de Jesus não relativiza a importância dos pobres”. “Pelo contrário, recorda-nos que estarão sempre presentes na história humana, exigindo por isso uma atenção contínua”, sustentou, explicando que “a permanência dos pobres não é desculpa para a indiferença, mas fundamento para o compromisso constante”.
O presidente da Cáritas Diocesana do Algarve avançou com um retrato da situação em Portugal e indicou que “os mais recentes dados acentuam a tendência da queda dos principais indicadores de pobreza e desigualdade”. “No entanto, a existência de 1,7 milhões de pessoas em situação de pobreza ou exclusão social continua a ser um fator preocupante”, acrescentou Carlos Oliveira.
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As Jornadas de de Ação Sócio-caritativa ficaram, no entanto, marcadas pelas reflexões do diretor do Departamento da Pastoral Sócio-caritativa do Patriarcado de Lisboa, Manuel Girão, e do diretor do Centro Paroquial de Paderne, padre Pedro Manuel.

O diretor do Departamento da Pastoral Sociocaritativa do Patriarcado de Lisboa veio alertar os agentes algarvios daquela pastoral para o que considerou ser a “pobreza do século XXI”. Os novos pobres são os “idosos isolados, sem família”, que “não têm muitas vezes dinheiro para a medicação, para aquecer a casa, morrem de frio no inverno e de calor no verão”. Aquele responsável, que é também diretor geral da Santa Casa da Misericórdia da Amadora, garantiu que naquela cidade a quantidade de idosos que a PSP encontra mortos em casa “é brutal” e que o acontecimento só é notícia na comunicação social quando são descobertos após “mais de três meses” de falecimento.
“Isto é pobreza do século XXI. Eu queria alertar-vos para isto porque é aqui que está o nosso trabalho, não é só com os pobres que estão à porta da igreja”, advertiu, lamentando que os “pobres do século XXI” sejam “pessoas que até trabalham, mas que ganham 920 euros de salário mínimo e pagam 800 euros de renda de casa”. Advertiu que “uma Igreja para os pobres não significa miséria institucional”. “Pelo facto de eu ter uma Igreja para os pobres, não tenho de ter uma Igreja desorganizada ou fragilidade pastoral. Pelo contrário. Muitas vezes há a ideia de que, como vamos trabalhar para os pobres, tudo pode servir. É aquilo que a eu chamo a miséria institucional”, sustentou.
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O padre Pedro Manuel – que abordou o tema “Gaudium et Spes, a fé que se faz ação” – deixou clara a importância daquela constituição saída do Concílio Vaticano II. “Não é apenas um documento histórico, é uma chave essencial para compreendermos a ação social da Igreja ontem e hoje. Este documento sobre a Igreja no mundo contemporâneo oferece à ação social da Igreja o seu fundamento teológico, antropológico e moral”, sustentou.
“A Gaudium et Spes recorda-nos que a fé cristã não se vive à margem da realidade, mas dentro dela. Cada gesto de cuidado, escuta, apoio ou defesa da dignidade humana é uma forma concreta de viver esta constituição”, prosseguiu o sacerdote da Diocese do Algarve, explicando que “a ação social da Igreja segundo a Gaudium et Spes tem três dimensões: a caridade, a justiça e a política”.
O diretor do Centro Paroquial de Paderne lembrou assim que “a defesa dos mais frágeis, que nasce e acontece também na colaboração com estruturas públicas”, deve levar a evidenciar a identidade cristã daquelas instituições sociais. “Fazemos porque somos cristãos, porque somos seguidores de Jesus Cristo e porque para nós não existe branco ou preto, rico ou pobre, novo ou velho, existe Jesus Cristo e é Ele que passa pelo testemunho que somos chamados a dar todos os dias”, referiu, clarificando: “o objetivo não é que as pessoas que ajudamos comecem a ir à Eucaristia, é que, por meio de nós, descubram Jesus Cristo. E descobrir Jesus Cristo a partir das ações concretas que testemunhamos. Então não fazemos proselitismo, mas testemunhamos o Evangelho através do serviço”.
O padre Pedro Manuel acrescentou que “a Gaudium et Spes afirma que a economia deve estar ao serviço da pessoa e não o contrário”. “O trabalho é um direito e uma dignidade e a desigualdade social é um problema moral. É justamente aqui que somos capazes de encontrar o que está errado nos sistemas económicos fechados, porque precisamos de princípios éticos claros: solidariedade, prioridade dos pobres, destino universal dos bens e justiça social. Tudo isto nos é recordado e escrito pelo documento que norteia esta partilha”, sustentou.
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